sábado , 16 dezembro 2017
Vida de mãe: como auxiliar no puerpério

Vida de mãe: como auxiliar no puerpério

“Durante os nove meses de gestação, não somente o bebê é gerado, mas também o desejo pela completude: acolher, proteger, nutrir…  Palavras mágicas, que representam, na essência, o desejo de ser mãe. Quando uma mulher engravida, mudanças ocorrem não somente no corpo, mas na rotina, na família e em tudo ao redor. Quando nasce o bebê, nasce uma mãe, e com ela também nascem o novo, a curiosidade e o medo de errar. O que parecia tão distante durante a gestação acontece e, pouco a pouco, dois seres desconhecidos e, ao mesmo tempo, tão íntimos, vão sendo apresentados a uma realidade de convivência com destino à eternidade!”

O puerpério…

Um turbilhão de emoções, acompanhado de mudanças hormonais, fazem “check-in” nesta mulher que agora precisa, de fato, exercer a maternagem. O tamanho da responsabilidade de cuidar de um bebê pode ser acompanhado por ansiedade e autocobrança. Independentemente de todo o suporte necessário do ambiente, é importante compreender que as alterações hormonais produzidas em função da gestação e do parto geram respostas no organismo da mulher que podem, muitas vezes, ser confundidas com transtornos de humor, gerando preocupação em familiares ou pessoas próximas.

No período de seis a oito semanas após o parto, chamado puerpério, ocorrem grandes modificações internas e externas, durante as quais a mãe continua a precisar de cuidado e proteção. Chorar ou irritar-se com facilidade podem ser comuns na fase puerperal, já que além da variação hormonal, a fragilidade do recém-nascido exige um estado de alerta constante, que pode mobilizar a produção de estresse. Além disso, a amamentação nem sempre é um processo fácil: muitas mães sentem-se seguras nas primeiras mamadas, mas, em seguida, passam a ter dificuldades ao se depararem com o choro do bebê faminto ou com as dores nos mamilos rachados, somadas ao medo do “fantasma de ter que recorrer à mamadeira”, uma vez que a enxurrada de conselhos e palpites de quem tenta ajudar, muitas vezes não dá trégua.

É possível sentir tristeza após um acontecimento tão feliz?

Uma preocupação dos familiares e conhecidos é o reconhecimento da fase, conhecida como puerperal blues, que pode acontecer logo nos primeiros dias após o nascimento do bebê. Esta fase, que se caracteriza por choro fácil e instabilidade de humor costuma abrandar, espontaneamente, em um período de aproximadamente duas semanas. Os cuidados a serem recebidos incluem o suporte emocional com a mãe. Acolher com carinho e sem questionamentos costumam aliviar bastante a angústia da mamãe, que não consegue compreender e, muitas vezes, nem mesmo aceitar vivenciar, de forma genuína, os próprios sentimentos. Sinais e sintomas mais graves, como os dos quadros de depressão, costumam evidenciar a continuação de um problema anterior até mesmo à gestação, perdurando por mais tempo e não podem ser confundidos com as respostas emocionais que ocorrem neste período.

Como auxiliar nas dificuldades?

Algumas mamães preferem exclusividade nos cuidados com o bebê nos primeiros dias: elas próprias querem atender às demandas. Outras, ao contrário, sentem-se mais seguras quando auxiliadas diretamente por alguém de sua confiança, especialmente em momentos como amamentação, troca de fraldas e banho. Procure observar se a mamãe dá abertura para o auxílio direto nos cuidados do bebê e não se frustre com a negativa. Há muitos outros afazeres, como auxiliar no conforto desta mãe, que também precisa ser cuidada, ou com a logística da casa e manejo com os irmãos, quando houver. Estas são formas preciosas de dar suporte, tão importantes quanto ajudar diretamente com o bebê. Lembre-se de que, quanto mais amparada sentir-se a mamãe, mais rapidamente adquirirá a segurança necessária para ganhar autonomia de gerenciamento da nova rotina que, além de dedicação e tolerância, será uma questão de tempo e adaptação.

Quando a ajuda profissional é necessária?

A adaptação à nova rotina varia de família para família. Cada mãe, a seu tempo, vai adquirindo a confiança e autonomia necessárias à mudança. Porém, se familiares perceberem um aumento progressivo de sofrimento torna-se necessária a avaliação médica, a fim de serem observados e tratados outros possíveis fatores, garantindo, assim, a segurança e o bem-estar de mãe e filho. Um auxílio importante nesta fase pode ser a psicoeducação ou orientação terapêutica, realizada pelo psicólogo. Ser acolhida e orientada pelo profissional, que está fora do contexto familiar, pode auxiliar na aceitação do momento presente com todas as inseguranças, próprias desta fase. Hoje, há até mesmo a possibilidade de realização de sessões de psicoeducação on-line, a fim de facilitar o conforto desta mãe e do bebê.

E… Para as recém-mamães:

Permita-se vivenciar os sentimentos sem julgamento. Faça escolhas baseadas no seu desejo, que é o de receber e proporcionar bem-estar. Não se aprisione à regras: cada experiência é individual e permite que cada mulher, a seu modo, vá selecionando a melhor forma de agir. Procure respeitar seus limites, permitindo-se dizer “não”, quando necessário. Não se envergonhe de pedir ajuda: lembre-se de que mães são seres com as mesmas necessidades de cuidado, sujeitas à cansaço, dores, medos e fragilidades. Se a realidade estiver diferente da expectativa, procure aceitar com carinho e generosidade que a perfeição é somente um desejo e que o bom da vida é cada minuto em que se pode desfrutar do dom de amar!

Tatiana Berta Otero

 Psicóloga Clínica (CRP 06/93349), Terapeuta Cognitivo Comportamental (USP), Mestranda do Depto. de Medicina Preventiva da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) – www.tatianabertapsicologa.com.br

 

*Texto originalmente escrito para o Blog Afeto de Mãe:

http://afetodemae.com.br/pos-parto-recuperacao-e-reorganizacao/

 

Bibliografia de apoio:

Andrade RD, Santos JS et al. Fatores relacionados à saúde da mulher no puerpério e repercussões na vida da criança. Esc Anna Nery 2015; 19(1): 181-186