sábado , 21 outubro 2017
Não consegue elogiar? Tudo bem, mas o “não dito” também fala…

Não consegue elogiar? Tudo bem, mas o “não dito” também fala…

            Uma palavra pode mudar o dia de alguém. Sim, uma grande verdade: pode mudar não só o dia, mas tudo: para melhor ou para pior!

            Somos seres sociais e precisamos, portanto, uns dos outros. Quando nossas primeiras referências de cuidado nos oferecem confiança e acolhimento, nos sentimos valorizados e importantes. Da mesma forma, quando estes primeiros cuidados ora são dispendidos ora negligenciados, começamos a aprender que o estado de alerta é uma condição necessária e que, mesmo quando recebemos atenção, existe também a possibilidade de que esta nos falte. Instala-se aí, um ciclo de insegurança e necessidade de controle ou de antecipação a toda e qualquer possibilidade de “erro”. Coloco a palavra “erro” entre aspas porque questiono bastante como a maioria de nós a vê, assunto para um próximo post…

            Muitas queixas estão relacionadas ao medo de ficarmos sós, de sermos abandonados ou de nos tornarmos incapazes de buscarmos recursos próprios. Será que por isso, geralmente pessoas muito preocupadas com o bem-estar do outro e, ao mesmo tempo, bastante autocríticas, cercam-se por pessoas que expressam mal ou pouco afeto ou que são, até muito críticas? Alguém que critica muito, mas ao mesmo tempo permanece constante em presença, pode se tornar indispensável, a depender da crença de que “é ruim ou perigoso estarmos sós” ou de que “não encontraremos outra pessoa que nos dê atenção”. Muitos, de fato, não aprenderam a acreditar que receber atenção vai muito além da presença física ou que merecem bem mais do que um status de relacionamento na rede social.

            Quando elegemos parceiros muito exigentes ou que pouco nos incentivam, seja com palavras ou com atitudes, estamos perdendo  oportunidades de construirmos autorreferências mais positivas. No ambiente profissional, familiar ou íntimo, não há nada de errado em buscarmos modelos para aprendermos, no entanto, escolhermos estar próximos de pessoas pouco reforçadoras nos coloca em risco de continuarmos sem aprendermos a reconhecer o que temos de bom e sem nos vermos merecedores de mais do que estamos recebendo. Quando aceitamos determinadas “manias”, regras ou excessos para podermos conviver, colocamos em risco a qualidade de nossas relações e, sobretudo, de nossa saúde. Receber feedback do outro é bastante importante, sobretudo quando não temos uma autoconfiança bem desenvolvida, porém tudo o que é imposto e repetitivo, se não trouxer algo de produtivo ou prazeroso em contrapartida, poderá  tornar-se  aversivo. E quando falamos de relacionamento, este é um risco que não se quer correr, não é verdade?

            Uma das maiores dores que podemos sentir é a dor emocional. Infelizmente, nos acostumamos a valorizarmos mais a dor física e pouco aprendemos sobre darmos a mesma atenção ao que os nossos sentimentos estão nos comunicando. Estudos apontam que o sentimento de abandono ou desamparo ativa as mesmas áreas cerebrais das dores físicas, equiparando-se às de queimaduras, por exemplo. Aqui, vale a reflexão: será que estamos procurando nos cercar de pessoas acolhedoras ou, sem perceber, repetimos o padrão de querermos dar “conta do recado” e acabamos ensinando que não precisamos nem mesmo de uma palavra de apoio? E se você é o “mal-acostumado” da história e acaba esquecendo de que uma boa palavra é um excelente começo para aproximar-se de quem realmente é importante em nossas vidas? Dizer “eu te amo” ou “você é importante” é difícil? Não há problemas! Estas não são as únicas formas de demonstrar que você valoriza a presença do outro. Você pode começar dizendo: “estou aqui com você”, “estamos juntos nesta tarefa” ou quem sabe ainda “faremos melhor juntos”. Difícil? Talvez não, somente novo. Por que não tentar?

 

Tatiana Berta Otero 
Psicóloga Clinica (CRP 06/93349)
Terapeuta Comportamental e Cognitiva (USP), Mestre em Saúde Coletiva (UNIFESP)
Life & Professional Coach (HOLOS-ICF)