sábado , 21 outubro 2017
Vivendo COMpaixão!

Vivendo COMpaixão!

     Quando divergimos de alguém, podemos escolher entre um posicionamento em função de um possível benefício (ainda que, para muitos, seja apenas o de “ter a última palavra”) ou de qualquer outra atitude que possa aumentar as chances de trazer benefício para ambos. Quando optamos pela segunda alternativa, estamos treinando um olhar compassivo para as nossas limitações e também para as do outro, afinal opiniões são apenas ideias e, portanto, deveriam ficar em segundo lugar.

     O sentimento de afeição e compromisso com outro ser humano é a base da compaixão. Ensinamentos antigos apontam que todas as habilidades podem estar presentes em todos nós: “Como seres humanos, temos o potencial para sermos pessoas felizes e compassivas e também para sermos infelizes e prejudiciais aos outros” (Dalai-Lama). A ciência, por sua vez, também nos ensina que o cérebro é um sistema com enorme capacidade de desenvolvimento e recuperação, capaz de incorporar modificações e ajustar-se funcionalmente: “… de produzir modificações que melhorem a qualidade de vida do indivíduo e amplie sua interação positiva com o meio ambiente, tornando-o melhor adaptado e apto à sobrevivência”.  Sempre podemos aprender, a partir de nossas escolhas.

     O conceito de autocompaixão está relacionado à forma como as pessoas lidam com o próprio sofrimento, apontando para a necessidade de vivenciá-lo com abertura, cuidado e compreensão. A autocompaixão geralmente é acompanhada de atitudes de não julgamento em relação aos nossos erros e inadequações, reconhecendo nossa própria experiência como parte da experiência humana comum. Trata-se de uma atitude saudável e positiva diante de situações de dificuldade, num sistema equilibrado e interligado, que inclui bondade consigo no lugar de autocrítica severa, atenção no agora e senso de humanidade em vez de isolamento social.

     A atitude de abertura implica em aceitação ativa do sofrimento, o que não significa colocar-se num estado de acomodação ou de passividade. Aceitar, neste sentido, diz respeito à compreensão de que, embora seja necessário fazer tudo o que esteja ao nosso alcance, não há como termos controle algum sobre as consequências, pois estas se devem ao curso natural da vida. Curiosamente, estudos científicos apontam que, quanto mais se cultiva o estado de autocompaixão, menos são alimentados estados como os de ansiedade e depressão. Podemos entender, assim, que este estado mental é preditor de boa saúde. Procurar exercitar a autobondade no lugar da autocrítica pode ser um ótimo treino para desenvolver compaixão com quem convivemos, a partir de tomadas de decisão mais assertivas (coerentes com nossos valores).

     Porque nunca estamos prontos,  podemos aprender e exercitar a compaixão nas pequenas atitudes, até mesmo quando temos dificuldade em não responder no mesmo tom que nos magoou. O treino de uma outra escolha possível no momento da emoção pode  nos guiar no sentido da promoção de relações mais amorosas e colaborativas.

*Tatiana Berta Otero  (Psicóloga (CRP 06/93349), Especialista em Terapia Comportamental e Cognitiva (USP), Mestre em Saúde Coletiva/Ciências (UNIFESP)

 

Bibliografia consultada:

WR Schimidek, GA Cantos – Ver Pensamento Biocêntrico, 2008 – fflch.usp.br

G Tenzin – Décimo Quarto Dalai-Lama, A vida de compaixão, 2002, Rio de Janeiro, Bertrand Brasil.