Relacionamentos: Por que nos conformamos em relações que não trazem felicidade?

 

Nesta entrevista, concedida à Rede Gospel de Televisão, a Psicóloga Tatiana Berta responde a diversas questões sobre as dificuldades dos relacionamentos do nosso cotidiano…

Primeira Parte:

P – Dra.Tatiana, muito obrigada por ter aceitado nosso convite e estar aqui com a gente hoje… a Dra. está aqui com a gente para falar um pouquinho de como administrar os relacionamentos…

T – Obrigada a vocês pelo convite Priscila, é um prazer estar aqui, e esse é um assunto que dá “pano pra manga”, não é?!

P – Com certeza….

T – Administrar relacionamentos é o que a gente faz o dia inteiro, não é?!

P – É isso mesmo…

T – …porque o homem não é um ser isolado… a gente precisa do olhar do outro, do amparo do outro. Nós nos construímos como seres humanos pelo olhar do outro, pela identificação com o outro, então nossos primeiros cuidadores vão nos dando esta base através do exemplo, através da orientação. Nós estávamos conversando antes, lembra Priscila, que nós temos duas formas de aprendizagem, e isso é muito bonito entender em Psicologia, que é por meio da modelagem e da modelação, ou seja, do modelo que nós temos e…

P – Que no início da nossa vida são nossos pais?

T – Basicamente nossos pais ou as pessoas que nos cuidaram desde que nascemos.  Então, nós vamos aprender a partir de olhar aquele modelo, na repetição, e através da modelagem, que é a instrução, quando esses modelos ou as outras pessoas com quem nos convivemos nos dizem o que nós temos que fazer: o passo a passo. Então, assim uma mãe que educa seu filho pode dizer assim “meu filho para você subir esta escada você precisa colocar seu pezinho direito, os dois pés, depois o esquerdo, depois outra vez, outra vez, e um de cada vez”; a criança vai aprendendo passo a passo, no entanto…

P – Vai condicionando?

T – …exatamente, vai automatizando esses comportamentos, depois ela vai subir sem pensar, no entanto, se ela vir a mãe pulando de dois em dois degraus ou de três em três degraus….

P – Vai achar que aquilo é o correto…

T – Mesmo tendo a instrução, ela vai entender que ela também pode fazer isso porque ela também aprende olhando. Então, olha como é importante a relação na vida do ser humano, é tudo, porque a gente aprende pelo meio. Nós temos uma história de espécie humana que nos favorece a selecionar comportamentos, então, por exemplo, eu não posso entender que eu vou abrir a janela aqui e sair voando porque eu não sou pássaro, eu sou limitada, sou um ser humano e eu me comporto a partir disso, a partir da minha história de vida, através dos meus modelos as minhas orientações e através do contexto presente. E é aí que está a magia do trabalho terapêutico, o poder entrar em contato com a forma como eu funciono e selecionar comportamentos alternativos que me façam mais feliz nas relações.

P – Que deixem menos aprisionados, não é Dra?

T – Exatamente.

P – Olha, eu queria que a senhora me explicasse porque que nos dias de hoje está tão complicada essa questão das relações Eu abri o programa falando que seja em casa com o marido, a gente já começa aí pelos familiares, com a sogra, muitas vezes com os filhos não é, você diz as coisas com o intuito de educar e algumas vezes eles interpretam de uma maneira como “tá me cerceando, me proibindo”, ai então cria um clima também ou com o namorado, no ambiente de trabalho, é como a senhora disse, em qualquer lugar que nós estejamos, existe um tipo de relação e porque está tão difícil as pessoas se entenderem nos dias de hoje?

T – Eu acredito que a palavra que define bem isso é o estresse. Vivemos em um mundo muito competitivo, muito corrido em que tempo vale dinheiro.

P – Não dá tempo para compreender o outro…

T – Exato, não dá tempo para compreender o outro ou mesmo quando eu necessito que esse outro me compreenda, mesmo nas relações intimas, eu estou tão desgastado em funções das outras relações do cotidiano, que eu já não tenho aquele grau de estabilidade necessário para que eu dê o espaço para outro, para que eu absorva aquilo que outro necessita e tem para me oferecer. Então, o estresse do cotidiano mexe muito com as nossas relações, porque nós não podemos imaginar que uma pessoa que está vivendo numa situação de adversidade, por exemplo, se ela tem que trabalhar quase doze horas por dia e se deslocar por mais três horas no trânsito, por exemplo, vai estar em condições plenas de tranqüilidade e de bem estar.

P – Para chegar em casa e de repente ainda ter um bom relacionamento.

T – E ainda ter, vamos dizer assim, todo aquele padrão de comportamento pré estabelecido culturalmente que nos é exigido também e que nos gera culpa, porque a gente não consegue cumprir… o que gera estresse. Então, o desgaste é crescente, quanto mais desgastados, mais vulneráveis nós ficamos a comportamentos agressivos ou a comportamento de fuga, ao isolamento…

P – A senhora falou de comportamentos agressivos, dá para citar então a questão daquele rapaz o Wellington, que atirou em 12 crianças na escola em Realengo?

T – Sim.

P – E ele deixou um vídeo citando que ele sofreu bulling enfim…

T – Muito triste isso, não é Priscila?

P – Muito triste, e essa questão do bulling vem sendo discutida constantemente, isso também é uma forma de má relação?

T – Claro, Priscila, mas assim, não podemos dizer que toda forma de agressividade é necessariamente iniciada por bulling na escola ou nas relações. Na verdade, essa agressividade a que eu me refiro é a agressividade “normal” de comportamentos selecionados porque sou humana, então, o que a gente aprende como precisar se defender daquilo que é perigoso. Vamos dizer assim, no desenvolvimento da espécie humana, se eu aprendesse que, ao dormir, eu estaria completamente relaxada, poderia vir algum animal e me causar um prejuízo ou se ao dormir na minha casa eu estou, vamos dizer assim, sem reação eu posso interpretar qualquer barulho como sendo simplesmente um trovão e não me dar conta de que pode ser algum perigo e me defender, então, o medo é um comportamento selecionado pra que a gente se proteja como ser humano. Só que o que acontece pela história de vida individual, e aí vem a questão do bulling, a gente às vezes acaba maximizando esses estímulos, a gente aprender a ter um medo super dimensionado daquilo que o outro está fazendo. Pra mim, aquela ação está provocando essa reação de medo exacerbado, ou seja, nesse ponto bulling e perigoso porque você vai construindo idéias a partir de si próprio por meio do que o outro está falando. Então, se o outro te agride e te coloca sentimentos ou referências próprias negativas, você vai de certa forma acreditando naquilo, o que gera desgaste e revolta…

P – Baixa auto-estima…

T  – Baixa auto-estima, é claro porque o que é auto estima, não é? A auto-estima é a percepção que temos de nós mesmos através do olhar do outro.

P – Sempre? Não tem aquela pessoa que diz assim “ah eu sou auto-suficiente”…?

T – Tem…

P – “E não importam o que digam de mim, se o meu cabelo está bonito, se a roupa combinou, se estou acima do peso, se eu não tô, mas eu me basto”.  Existe esse tipo de pessoa?

T – Muito muito, porque essas colocações funcionam como mecanismos de proteção, assim….

P – De auto-defesa?

T  – De auto-defesa.

P – Porque, na verdade, esta pessoa se preocupa sim com o olhar do outro.

T – Muito, muito. Sabe aquela coisa assim, de ficar na zona de conforto, que não tem nada de conforto e sim de muito sofrimento, mas que o senso comum fala assim “nada é tão ruim que não possa piorar”, é mais ou menos este mecanismo que acontece.

P – É porque essas pessoas que falam assim, geralmente se mostram tão seguras, que é inabalável e nada vai atingir, se eu chegar e falar assim “nossa essa cor não combinou, tá um desastre”, você nem aí, e vai continuar repetindo…

T – Então, o mecanismo de proteção existe porque você já aprende que este sofrimento causado pela fala do outro você tolera, você convive, mas se você  oportunizar-se um comportamento alternativo e vier uma outra fala que traga mais sofrimento, talvez você não saiba lidar. E, então, é uma forma de ficar dentro de uma conchinha, que te protege das relações e, por conseqüência, não permite que você avance nessas relações, se sentindo mais reforçado mais feliz…

P – Isso também vale para o trabalho, tem muita gente que trabalha, está exercendo determinada função e não está contente com aquela função, poderia estar desempenhando muito bem em uma outra que, de fato, aquela pessoa gosta e que ela se sente confortável naquilo que ela está fazendo, ela tem medo de avançar, não é?

T – Exatamente…

P – Diferente da doutora, que chegou para gente e falou ela já foi comissária de bordo, também, não é Dra? Foi estudar psicologia e está super realizada, tanto quanto antes, mas a vida avançou foi para um outro extremo e deu certo, mas nem todo mundo é assim…

T – … Porque é no ousar que você se permite acertar ou errar, o comportamento é isso, a seleção do comportamento é feita pelas conseqüências, mas como é que eu vou ter conseqüências melhores para minha vida se eu não me permitir ousar? Então eu poderia, de repente, por medo levar uma vida que já não me satisfazia profissionalmente… Mudança de contexto… Quando eu escolhi a aviação, era um outro contexto de vida que favorecia….

P – Que naquele momento era o ideal…

T – …Sim, e foi ótimo por muitos anos, mas o ser humano muda a cada dia, e eu não posso me sugestionar a não mudar, porque isso faz parte da espécie, a gente se transforma a cada minuto…

P – É uma constante transformação.

T – Exatamente.

P – E a gente tem que estar pronto para isso, Dra?

T – “Ter que estar” é uma expressão muito forte, mas eu diria assim, que o ideal é que a gente sempre se oportunize, na medida do possível, porque cada pessoa é única. Você talvez tenha mais facilidade de ser aberta a mudanças, eu talvez tenha mais. Mas cada pessoa tem uma história de vida e de reforçamentos que permite que haja assim ou de outra forma, então quando a gente se coloca essa questão eu tenho que mudar, automaticamente já cria uma auto-regra, uma regra interna, que me faz sofrer porque se eu tenho que mudar, tenho a oportunidade e não consigo, poxa, então “sou incompetente, não sou capaz”.

P – Pode vir as frustrações?

T – Vem as frustrações, certamente, os conflitos as angústias, porque a gente tem uma vida, Priscila, permeada por regras, a cultura nos coloca muitas regras, então a gente já tende a viver tentando satisfazer esse lado que seria o ideal, dentro daquilo que é possível, então o conflito é inevitável.

P – É inerente…

T – É inevitável. O desgaste, quando a gente fala do estresse lá no comecinho, é inevitável porque faz parte do cotidiano. Quando você tem regras ideais que, às vezes, não são compatíveis com o que a realidade nos apresenta, quando a gente vê casos de pessoas que matam, ferem o outro ser humano e você fica se cobrando, às vezes, porque não conseguiu dar uma resposta adequada para a outra pessoa e sofre, esse sofrimento é descabido porque o contexto favorece esse tipo de ação. Quando a gente chega num grau extremo de vulnerabilidade por excesso de desgaste, a gente não tem outra alternativa se não essa selecionada filogeneticamente no comportamento da espécie, que é “o atacar”, ou seja: nos colocarmos de uma forma mais agressiva e inadequada se eu estiver muito desgastada, ou “o fugir”, que seria  o “se colocar dentro desta conchinha”, se conformando com a realidade que se apresenta e não fazendo nada para mudar porque permaneço naquela zona de conforto, que de confortável não tem nada.

(Continua)

 

 

Tatiana Berta

Psicóloga e Psicoterapeuta Comportamental e Cognitiva

CRP Principal (06/93349)

CRP RS (07/20139)

Fone: (11) 8254.6237

Atendimentos em São Paulo: Rua Bela Cintra, 968, cj. 32 (Metrô Consolação, próximo à Av. Paulista)

 

 

O conteúdo do artigo é  informativo e não substitui a consulta com um Psicólogo.

 

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