
O desejo de voar faz parte da história da humanidade. Das mitológicas asas de penas de Ícaro e Dédalo às primeiras engenhocas voadoras do século XVIII, o sonho de voar foi acalentado desde sempre…
A história nos conta sobre as peripécias de homens que, com o propósito de voar, correram riscos em tentativas frustradas como saltos mirabolantes com a utilização de asas desajeitadas que, supostamente, seriam comparadas às de pássaros ou borboletas…
Em 1901, o brasileiro Alberto Santos Dumont contornou a Torre Eifflel com um dirigível, o que foi considerado o primeiro vôo da história. Mas, as conquistas do homem nos céus, estariam apenas começando neste momento… Hoje, existem poderosas máquinas voadoras que transportam não apenas homens, mas os sonhos destes seres que entendem que, atravessando distâncias, chegam mais perto de si mesmos…
Mas, por que o sonho de voar encanta tanto os homens? Por que alguns profissionais abrem mão de tantos outros sonhos ou desejos em função de seu trabalho? Será que entenderiam a atividade que exercem apenas como profissão, ou seria esta uma forma de entrar em contato com a liberdade evocada pelo verbo “voar”, presente na fantasia da maioria dos mortais e vivida por poucos? O ser humano não nasce com asas, mas utiliza-se de sua racionalidade para construí-las e alçar vôos tão altos quanto os das criaturas aladas…
Poder, determinação e desejo de liberdade fazem parte de profissionais como pilotos e comissários de bordo que, de alguma forma, “construíram suas próprias asas”, através de suas carreiras, em busca da auto-realização.
Embora tenham sonhado e escolhido a profissão que lhes “dá asas”, os aeronautas, em função das características do trabalho que exercem a bordo de aeronaves, encontram-se expostos a muitos riscos relacionados tanto ao ambiente insalubre a que são expostos quanto à própria função exercida. Para que uma aeronave possa voar, esta precisa ser adaptada de maneira a transformar o seu ambiente interno artificial o mais semelhante ao ambiente natural, passível de manter a sobrevivência humana. No entanto, para tornar o ambiente de uma aeronave propício à sobrevivência a grandes altitudes, alterações como pressão parcial de oxigênio, ruído excessivo, vibração, baixa umidade do ar, riscos como os de perda súbita de pressão ou diversos outros, podem atuar no organismo dos ocupantes da aeronave, de maneira a causar alterações nos mesmos. Além disso, a jornada de trabalho dos profissionais de aviação possui regulamentação específica e permite longas horas de duração, podendo incluir o cruzamento de fusos horários, fatores que contribuem para alterações no funcionamento do organismo em decorrência de alimentação e sono. Através de pesquisas, sabe-se, no entanto, que a maior causa de afastamento dos aeronautas de suas funções não é predominantemente o desgaste físico que sofrem, mas principalmente o desgaste emocional em decorrência da tão sonhada profissão. Palma (2002), em tese sobre a saúde do aeronauta, aponta que a maior parte dos problemas de saúde recorrentes e que causam afastamento à categoria referem-se àqueles de ordem psicológica. Assim, muitas vezes a atividade desejada e escolhida e que causa prazer e desejo, pode também causar sofrimento psíquico.
“Viver nas nuvens e, ao mesmo tempo, manter os pés no chão”, talvez não seja tão fácil como se pode imaginar. A busca do entendimento da relação individual com o meio pode servir como auxílio para o exercício de uma atividade profissional que, naturalmente, cause a seleção de comportamentos que promovam, sobretudo, qualidade de vida.
Tatiana Berta
Psicóloga Clínica (Terapeuta Comportamental e Cognitiva)
CRP (06/93349)
Fone: (11) 98254.6237
Atendimentos em São Paulo: Rua Vergueiro, 2045, cj.1110 (Metrô Ana Rosa)
O conteúdo do artigo é informativo e não substitui a consulta com um Psicólogo.